A Era da Reflexão

É comum ouvir muitas pessoas dizerem: Se tem que pensar então não quero! Ou ainda: Pensar cansa. Há uma rejeição vigorosa e sistemática frente à condição de ter de se fazer uso do pensamento, que quer dizer: Faculdade de pensar logicamente ou poder de formular conceitos. E, em nível mais exigente, fazer uso da reflexão, cujo significado é: Volta da consciência, do espírito, sobre si mesmo, para exame de seu próprio conteúdo, ou ponderação. É reconhecido que pensar e refletir dão trabalho e o repúdio existente ancora-se na acomodação daquele que prefere o atalho ao caminho mais longo. Mas nem sempre a economia gera bom resultado, especialmente no campo das ideias. Comprovadamente, quem pensa pouco sobre os problemas tende a sofrer mais. Ou pode-se usar a frase popular: Quando a cabeça não funciona, o corpo padece. A questão, no entanto, é que embora exista um movimento contrário ao de se fazer uso dos recursos próprios, de cuja prática atinge-se cada vez mais o desenvolvimento, há períodos na vida em que não há opção além de o homem ser forçado a pensar e, quiçá, refletir. Nem sempre é possível esconder-se da necessidade vital de se analisar e ponderar sobre determinado assunto, a exemplo da própria sobrevivência. Pois bem, é exatamente acerca de tal aspecto que me refiro ao propor o título deste texto: A Era da Reflexão, haja vista convivermos com situações difíceis e progressivas tais como o uso indiscriminado da água doce; as perspectivas do declínio energético; a corrupção instalada na sociedade; desajustes psíquicos de larga escala etc. Se, de alguns anos para cá fomos envolvidos pelo que se designou Era da Informação, dentro em breve será cultuado, com o devido mérito, o período que será marcado pela atividade reflexiva.Não será possível ultrapassar tamanhos obstáculos a não ser por vias do pensamento e da reflexão. Logo, a acomodação cederá lugar ao trabalho mental em níveis mais complexos. (Pelo menos, boa parte da população ousará desafiar-se em tal empreendimento.) Julgo prudente tratar, ainda que em poucas linhas, as questões aqui lançadas. Considere-se a água doce, que, além de ser usada de forma descontrolada, sofre com a sua poluição por incontáveis vezes. A escassez poderá atingir o ser humano de modo essencial pela dependência direta deste recurso. Deve-se compreender que a água também pode afetar a produção agrícola, tal como ficou demonstrado no estudo realizado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos no começo da década. Não há sustentabilidade que se estabeleça com o mau uso da água. Vale a pena também adentrar no terreno da energia, notadamente o petróleo, pois, embora muita gente saiba da sua condição não-renovável, há aquele que sequer faz ideia de tal finitude. Especialistas divergem a respeito, mas a compreensão que se tem indica que existe o crescimento da exploração até se atingir o auge (na metade de sua capacidade) e em seguida ocorre o declínio lento, até escassear. O que se deve ponderar atualmente, portanto, não é exatamente o fim desta energia, mas a redução natural (a natureza não se engana) da sua exploração frente a crescente demanda mundial. A China cresce a taxas exorbitantes na aquisição de veículos, por exemplo. Há paises que dependem vital e estrategicamente desta forma de energia e farão qualquer coisa mediante algum tipo de risco que se fizer presente. Não obstante, outra prioridade a ser observada é o alto índice de corrupção ao redor do planeta. As propinas e os esquemas políticos e empresariais não destroem apenas a ordem social, eles difundem a ideia de que a única forma de agir é esta. Ainda que seja uma falsa crença (muito bem instalada com o passar dos anos), para modificar o cenário não bastarão só políticas mais rígidas, conhecimento e boa vontade, urge considerar a paciência, peçachave em tal transformação. Levará um considerável tempo! Todavia, quanto mais se demorar a tomar uma rota mais justa, tanto mais difícil será a mudança. Soa óbvio, mas não é percebido desta forma. E, para encerrar a nossa apreciação sobre os problemas de abrangência mundial aqui apontados, acrescento os desajustes psíquicos. E não foi por acaso que os coloquei por último nesta pequena mas potente lista de itens para a reflexão. Voltar-se para si mesmo será imperioso doravante, a fim de se obter maior autoconhecimento. (Conhece-te a ti mesmo é uma expressão atual, embora a sua origem remonte a Grécia antiga, particularmente relacionada ao sábio Sócrates e o Oráculo de Delfos.) Esta é uma maneira adequada de encontrar melhor ajuste diante de gigantescas transformações e crises, tanto pessoais quanto coletivas. Pedir ajuda especializada, cada vez mais, também comporá o mosaico que retratará o desenho da retomada do equilíbrio mais amplo. Sempre nos depararemos com o desequilíbrio (elemento necessário ao desenvolvimento), porém, há períodos em que o descontrole supera a capacidade de regulação, exigindo, por conseguinte, maior esforço por parte da reflexão e dos seus relevantes resultados. É oportuno indicar ainda, que quanto mais bem resolvido se encontrar o psiquismo através do autoconhecimento, autonomia e bom senso (todos desenvolvidos de forma particular), tanto melhor se encontrará o campo psicológico para receber as sementes do pensamento e da reflexão, para que, conforme a qualidade do que se semeou possa ser colhido abundante e generosamente. É, com efeito, o que se chama de recompensa incalculável. É, por força de tal empreendimento, que poderá se chamar, com justiça, de Era da Reflexão.

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