Uma condição essencial ao autoconhecimento é o
desenvolvimento da inteligência emocional. É preciso conhecer mais a
respeito das emoções e das suas possibilidades colaboradoras,
principalmente no que diz respeito a sua ação conjunta à justiça.
Tomemos contato com as emoções, cuja serventia pode ser
identificada através do estudo realizado por Daniel Goleman: (1)
raiva: com a aceleração do batimento cardíaco e a secreção de
alguns hormônios, em destaque a adrenalina, gera-se uma pulsação
e energia para agir vigorosamente mediante uma dada necessidade;
(2) amor: estimula a aceitação, amizade, confiança, afinidade,
adoração, paixão; (3) tristeza: põe a pessoa em contato consigo
mesma, estimulando-a à autoavaliação de questões internas, a fim
de encontrar soluções aos vários problemas psíquicos existentes; (4)
vergonha: relaciona-se a culpa, vexame, remorso, arrependimento.
Logo, compreende-se que as emoções também dizem respeito
às questões morais e éticas, e, consequentemente, aos nossos
comportamentos. Emoção e moral devem caminhar de mãos dadas.
Quantas atitudes (boas e ruins) são tomadas baseadas tanto na
compreensão que se tem da justiça quanto pelo ímpeto do momento.
Conforme uma se sobrepuja a outra (considerando-se o controle que
se possui sobre as emoções), obtém-se um determinado resultado.
Ou seja, caso a consciência acerca da justiça se faça imperativa em
um dado momento de decisão, com o adequado recuo das emoções,
é possível causar e obter efeitos recompensadores. Todavia, se as
emoções se apossam da circunstância, certamente os resultados
serão diferentes. É claro que há ocasiões em que certa dose de
emoção é crucial para se decidir e sair da apatia, alcançando efeitos
desejáveis. Cada situação deve ser avaliada e, com a devida prudência, empreender a ação que considerará a dosagem mais
adequada entre moral e emoção. Porém, para se chegar a esse
ponto, requer-se uma boa exploração acerca de si mesmo, através do
autoconhecimento e o exercício do controle emocional ao longo dos
anos. Conhecer, compreender e praticar.
Quantas vezes o ser humano age por impulso, quase que
exclusivamente, e, depois de algum tempo, pode se arrepender pelo
tipo de resultado que causou tanto para quem sofreu uma possível
injustiça quanto para si próprio, cuja culpa pode perseguir por tempo
indeterminado, ou até que se busque a redenção através de algum
pedido de desculpa e reaproximação. É útil lembrar que para cada
causa gerada, consciente ou inconsciente, de forma calma ou
explosiva, decorrerão efeitos, cedo ou tarde. Há ocasiões em que
agimos mais justamente e, em outras, nem tanto. Assim,
desenvolver a inteligência emocional é uma tarefa para o
crescimento, cujo objetivo é alcançar patamares mais elevados de
consciência e atuação relacionadas à justiça. Criar melhores
condições de controle sobre as emoções é crucial, especialmente nos
casos em que a raiva se apossa por tempo indeterminado.
Perdoar, por conseguinte, é uma condição presente na gestão
pessoal das emoções. Quando permanecemos rancorosos em relação
a outrem são acionadas as emoções pertinentes a esse rancor. E, por
tal razão, nos desgastamos tanto ao não perdoar o outro quanto ao
não perdoar a si mesmo, haja vista o perdão partir de dentro para
fora para que ocorra legitimamente, e não da boca para fora. Outro
ponto é o fato de que, ao não perdoar julgamos o outro imperdoável.
A partir desta noção, criamos dificuldade para perdoar a nossas
próprias injustiças, visto nos encontrarmos irredutíveis de acordo com
a nossa crença. (Entretanto, não custa lembrar: todos nós
cometemos injustiça!) A flexibilidade, o respeito e o perdão podem
modificar tal cenário e libertar o que se prendeu internamente (rancor) a fim de equilibrar a atuação da justiça e permitir o
desenvolvimento.
Logo, podemos nos inquietar por surgirem algumas perguntas:
Faço mal a mim mesmo ao não perdoar? Sou justo com o outro por
tal decisão? Sou justo comigo mesmo agindo assim? Tal como o
padre Antônio Vieira (1608-1697) afirmou: “Quando perdoamos as
ofensas que nos fazem nossos inimigos, nós mesmos nos damos o
perdão das ofensas que temos feito a Deus. Com razão disse a santo:
Homem, entende porque isto parece que se não pode entender. Dar
perdão de pecados é jurisdição ou regalia somente de Deus: Logo,
como me posso eu dar a mim mesmo o perdão de meus pecados?
Funda-se esta sentença naquela promessa de Cristo: ‘Dimittite, et
dimittemini’ (Lc 6, 37): ‘Perdoai, e sereis perdoados’. - E como esta
promessa é condicional, e a condição depende de mim, quando eu
cumpro a condição eu sou o que me perdôo.”
Porém, deve-se considerar a empatia nesta análise. De acordo
com Goleman: “A empatia é alimentada pelo autoconhecimento;
quanto mais consciente estivermos acerca de nossas próprias
emoções, mais facilmente poderemos entender o sentimento alheio.
Essa capacidade – de saber como o outro sente – entra em jogo em
vários aspectos da vida, quer nas práticas comerciais, na
administração, no namoro e na paternidade, no sermos piedosos e na
ação política. A falta de empatia é também reveladora. Nota-se em
criminosos psicopatas, estupradores e molestadores de crianças. A
atitude empática empenha-se interminavelmente em julgamentos
morais, pois os dilemas morais envolvem vítimas potenciais. [...] As
raízes da ética estão na empatia, pois é o sentir empatia com as
vítimas potenciais – alguém que sofre, que está em perigo, ou que
passa privação, digamos – e, portanto, partilhar da sua aflição que
leva as pessoas a agirem para ajudá-las”. E ainda: “a própria capacidade de afeto empático, de colocar-se no lugar de outra
pessoa, leva as pessoas a seguir certos princípios morais.”
A empatia é, por conseguinte, uma capacidade que deve ser
observada com interesse e o seu desenvolvimento torna-se crucial à
obtenção de ações focalizadas na justiça. Logo, em tal análise incluise
a formação da empatia na criança. Pois, desde bem cedo ela pode
estar presente, haja vista ser percebido, através de pesquisas, que,
por exemplo, a criança de um ano tenta consolar outro que chora, ao
lhe oferecer um brinquedo. E, ressalte-se: “No fim da infância,
surgem os mais elevados níveis de empatia, pois as crianças são
capazes de entender a aflição que está além de um acontecimento
específico e constatar que a condição ou posição de alguém na vida
pode ser um motivo de aflição permanente.”
Compreensões sobre questões grupais (pobreza, opressão ou
marginalização) podem reforçar convicções morais, cuja base está no
desejo de aliviar o infortúnio e a injustiça. Já experimentou isso? É
mais um aspecto importante para o melhor desenvolvimento acerca
da justiça. Pergunte-se: eu me conheço? Sei perdoar? Perdoo-me?
Quão justo eu sou, de fato, tanto para com os outros quanto para
comigo mesmo? O que disso resulta no convívio social?
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