A razão confere ao ser humano a capacidade de escolha frente
às possibilidades que a vida oferece. Porquanto o homem pode optar
ao invés de se submeter, se assim lhe interessar. Por tal condição,
ele avançou aos estágios tecnológicos tão apreciáveis atualmente,
além de estimular a sua continuidade indo em direção ao que a
imaginação e a realização permitirem no futuro. Então, do ponto de
vista da preservação da espécie e do aperfeiçoamento, fins
estabelecidos o inspiraram na jornada evolutiva. E, para atingir cada
fim pretendido, demandou-se a criação dos respectivos meios. Mas
ocorreu uma séria incompreensão, levando-o a trocar o fim pelo
meio. Mais: a troca revestiu-se de verdade inquestionável e absoluta.
Diz-se, sem pestanejar: “É assim mesmo!” Medo de eventual revisão?
Com o desenvolvimento da sociedade, novos interesses
ganharam espaço na vida comum, incluindo-se, notadamente, a
posição social que tantos aspiram atingir. A partir dessa perspectiva,
os meios que deveriam servir para se alcançar a sobrevivência,
mesclaram-se com o status quo, e, em vários casos, resultou o
exagero. Por exemplo, a moradia (meio) para a proteção (fim)
pessoal e familiar, tornou-se a finalidade em si mesma, haja vista
muitas pessoas se predisporem mais a conquistá-la para a satisfação
das aparências sociais do que propriamente para a sua segurança –
ainda que não se perceba -, pois as dimensões arquitetônicas e os
padrões de luxo servem, consideravelmente, de modo
estatisticamente comprovado, para atrair o perigo do roubo e, nos
casos extremos, da morte.
Entretanto, o autoengano faz o seu autor alegar que só se quer
maior conforto e segurança, e que, infelizmente, alguns assim não o
permitem. Porém, equivale dizer que há efeito sem causa. Reaçãosem ação. É prudente lembrar que quem pretende chamar a atenção
da sociedade para a sua abundância, atrai não apenas àquele do seu
interesse, mas a outros cujo objetivo é perigosamente distinto...
Ainda: verifica-se que mesmo que a troca do fim pelo meio salte aos
olhos, a cegueira causada pela autoilusão impede de se observar
criticamente tal equívoco, e faz, ainda, concluir-se, de forma
imperativa, que morar modestamente é pouco, e que a riqueza
simboliza inteligência superior. Será mesmo?
Portanto, ao invés de tentar reduzir as chances de sofrer os
perigos através da ponderação e da modéstia, age-se contrariamente
à lógica da segurança, erguendo enorme chamariz por meio da
irrefletida necessidade da opulência. Não se aprecia sequer que
houve uma alteração do fim pelo meio, e que a simples sobrevivência
foi engolida pela complexa dimensão da aparência e da satisfação
acerca da localização na pirâmide social. Não é arriscado demais?
É claro que há lugares ao redor do mundo onde a segurança se
mostra melhor instalada. Não obstante, inexiste a garantia de que se
perpetue tal proteção, pois o descuido é filho da acomodação, e
somos sempre tentados a tal relaxamento. E mesmo nos casos em
que aparentemente a segurança encontra-se em alta, a realidade
impõe-se inexorável. Logo, emerge uma pergunta: Nas atuais
condições sociais, não se anda na contramão do bom senso ao
mostrar grandeza (e gastar com ela) e se expor tão abertamente?
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