Quando temos a certeza de que só andamos para frente, e a
referência evolutiva baseia-se tão somente nos avanços tecnológicos,
é ai que o autoengano demonstra claramente ter tomado conta da
razão. Se antes ainda havia certo bom senso que combatia as
exageradas fantasias pessoais, agora, contudo, a ilusão revestiu a
sociedade com a sua lona e o show, ao que tudo indica, não tem hora
para acabar. Enorme porção das pessoas, por exemplo, possui uma
educação esfarrapada. Mas dá para levar assim mesmo! Afirma-se.
Afinal, para que serve o saber se o mercado de trabalho exige títulos?
A ética, sobretudo na esfera política e no ‘jeitinho’ popular de arranjar
as coisas, foi praticamente sorvida pelo vampiro da corrupção.
Ninguém faz nada? É claro que faz, ri sentado enquanto assiste à
televisão e toma cerveja. Quer mais? O consumismo não apenas diz o
que vestir ou o que comer, ele dá as cartas em relação ao modo de
se relacionar socialmente, haja vista ‘ter’ e ‘ser’ significarem a
mesma coisa na nova linguagem das relações humanas. O dinheiro
manda, obedece quem tem dívida! Ou ansiedade. Enfim, fazer é
melhor do que pensar. O negócio da reflexão e da consciência,
conclui-se, é coisa dos livros os quais não lemos. Deus me livre! Só
ouvimos falar neles.
É o jeito Curupira de andar. Os passos são sempre para frente,
mas as pegadas mostram o contrário, pois os pés estão voltados para
trás. Para piorar, cremos, sem hesitação, que somos a geração do
futuro. Bravo! De modo imperceptível, o autoengano trabalha
incessantemente e nos faz crer melhores do que somos. Porquanto
pergunto, sem defender qualquer proposta de retrocesso: já não foi
bem melhor a qualidade da educação no passado em relação ao que
se percebe no presente? Não houve mais honestidade ontem do que hoje, mesmo quando a malandragem percorria alguns gabinetes
parlamentares? E quanto ao consumismo, por que cedemos tanto à
roda escravista do sistema Compre-Mesmo-Sem-Precisar? Achamos
natural trocar muitos bens em pequenos intervalos de tempo! Então,
tornamo-nos reféns de nós mesmos a partir da hipnose arquitetada e
promovida por meia dúzia de pessoas interessadas em tal sonolência
e enquadramento? Somos cativos do astuto esquema psicológico,
pois temos que trabalhar cada vez mais para manter o status que
exige tais compras, do contrário nos sentiremos inferiores, pobres
diabos da sociedade. Assim o fazemos e, ironicamente, vivemos a
reclamar pelas dificuldades imputadas pelos gastos frequentes. Pior:
para alguns, o consolo é ver-se de pé no páreo diante dos outros que
tombam ao longo da funesta corrida que oferece exaustão e
constante falta de ânimo por nunca ser possível ver a linha de
chegada. Ignoramos a nossa falta de reflexão e visão acerca dos
males que nos afligem. Lançamos a culpa sobre os outros e as
circunstâncias; tudo que esteja além de nós. Nunca a nós próprios. É
o jeito Curupira de andar, acreditando que se avança sem notar as
pegadas a dizer o contrário. Será que estamos dando os passos na
direção do verdadeiro desenvolvimento, capaz de resultar em
autonomia e sustentabilidade?
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