Por adulto, compreende-se: “relativo ao período da vida após a
adolescência”. Mais: aquele que é capaz de tomar decisões e
responder por seus atos, e, ainda, que possui independência,
permitindo-lhe a mínima sustentabilidade material para a própria
sobrevivência e a de terceiros sob a sua responsabilidade, temporária
ou não. Então, pode-se discorrer amplamente acerca dos aspectos
que caracterizam o perfil do indivíduo adulto. Não se considera,
contudo, uma questão essencial que pode fazer desabar a estrutura
aparentemente madura quando se sofre certa pressão em um ponto
vulnerável: a infantilidade do ego que não aceita se frustrar, e que se
oculta sob o disfarce de vítima da agressão alheia, nunca da própria
imaturidade. Portanto, tornam-se cruciais a adequada percepção, a
análise crítica e o bom senso quanto ao autoengano de se julgar ser
aquilo que não é.
A dinâmica inconsciente da autoilusão entorpece a mente e
contraria as evidências, pois, do contrário, poder-se-ia tomar
consciência a seu respeito e, por opção consciente, modificar a
situação. Não se trata de uma mentira que se aplica às claras, com o
consentimento do seu autor. Não. É um jogo subterrâneo do
psiquismo que tenta se defender da dolorosa condição de
desenvolvimento em que se encontra. Alguém que trabalhe e
sustente financeiramente a si próprio (e a próximos do seu interesse)
é visto como gente grande. Mas se não consegue lidar com uma
discussão de convívio pessoal ou profissional e aponta o dedo da
culpa para os outros e não à sua deficiente visão dos fatos, poderia
ser percebido como uma criança que não tolera sentir-se magoada. A
força descontrolada das emoções que emergem e a falta de maturidade cedem lugar à birra que faz obscurecer a avaliação
racional de tal fraqueza.
Quando nos encontramos tristes por algo dito por outrem, por
exemplo, rapidamente disparamos em troca a crítica, posicionando-se
como vítima. Se há testemunha, então, reforça-se o fato com maior
vigor. O anjo desfalece diante do seu demoníaco algoz. Todavia, se
há luz suficiente para clarear a escuridão do desconhecido equívoco,
é possível julgar o caso com maior propriedade e chegar à reveladora
elucidação. Observe-se que o que se atribui ao outro como culpa, é,
basicamente, a ausência de consciência sobre si mesmo. Somente a
própria pessoa pode autorizar, ainda que sem perceber, a quantidade
e a qualidade do impacto sofrido pelos estímulos que lhe chegam.
Tanto que, em determinado momento, pode-se receber um
desagrado e causar revolta de toda ordem, e em outra ocasião, o
mesmo tipo de desprazer ser superado com imensa facilidade. É o
ponto de vista, num dado momento da vida, que dá o tom particular
ao evento experimentado. Daí decorre a incompreensão que distorce
a realidade, trazendo à tona a insegurança, a raiva e a cegueira
daquele que passa a se comportar como uma criança.
A dificuldade de se empreender a evolução adulta mais plena
reside na crença (e na teimosia) de que se está certo de maneira
absoluta naquilo que, pela lógica, se mostra infundado. De não se
perceber limitado e imperfeito, tendo à frente considerável caminho
de aprendizagem. Da acomodação que se opõe ao enorme esforço
exigido pelo amadurecimento. E, notadamente, da inconsciência a
respeito da própria inconsciência.
A reflexão e o autoconhecimento, pois, podem elevar o homem
à vida adulta, proporcionando-lhe mais consciência e maturidade, tão
fundamentais para o domínio de si mesmo e das escolhas que são
feitas constantemente.
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