Vítima ou responsável?

Em uma breve conversa com o vigia de uma instituição, compreendi a sua abrangente visão sobre o sofrimento a que são submetidas as pessoas ao longo da vida. Ele iniciou o diálogo dizendo que sentia dores pelo corpo, e tal fato se devia aos excessos cometidos desde a sua infância, e que, portanto, pagava hoje pelo que havia feito ontem. Ele assumia calmamente a responsabilidade de seus atos. Acrescentou que não tinha dó das pessoas quando as via sofrer porque, segundo o que observou durante anos, tais aflições diz respeito ao que cada um tem de pagar pelas coisas feitas. E finalizou, argumentando: “Deus não castiga a gente. A gente é que se castiga pelo que faz”. Em tão pouco tempo o vigia sintetizou os seus pensamentos, adquiridos de modo reflexivo. Ali, em minutos, ele apresentou tamanho conhecimento, profundo e consciente de tudo o que descrevia a respeito dos tormentos experimentados pelo ser humano. Em silêncio, formulei uma questão: Afinal, somos vítimas da circunstância ou responsáveis por ela? Sofremos por acaso ou merecemos tal situação? (pelo menos, boa parte dela?!). Pois bem, a ideia acerca dos erros cometidos e do consequente pagamento pela dívida contraída também foi apreciada por outros pensadores. Michel de Montaigne (1533-1592), filósofo francês, expôs: “Tal o efeito maravilhoso e irresistível da consciência, obriganos a nos denunciarmos, a combatermo-nos a nós mesmos e, na ausência de outra testemunha, depõe contra nós: servindo ela própria de carrasco e fustigando-nos com látego invisível. O mal recai em quem o faz”. E anteriormente, na Grécia, Epicuro (341-270 a.C.), citado por Montaigne, apontou: “O mau não tem onde se esconder, porque não tem certeza de estar escondido, pois que a sua consciência o denuncia a si próprio: o primeiro castigo do culpado está em não poder absolver-se a seus próprios olhos”. A responsabilidade pelos atos é ponto comum encontrado em algumas ideias convergentes. Por conseguinte, concluo, felizmente, e para a nossa sorte, que a filosofia pode estar presente em qualquer época e em qualquer lugar! Logo, é momento de pensar honesta e claramente a respeito e se autoavaliar, verificando os atos cometidos e sofridos, especialmente se há encadeamento (ação e reação), independentemente do tempo entre um fato e outro, pois na natureza as coisas têm o seu tempo de se manifestar. Não é assim para se colher os frutos daquilo que se plantou? E ainda, na sequência de tal meditação, sofrer para reparar algo indevido deve ter um objetivo, tal como foi percebido por Sócrates (470-399 a.C.): “O castigo nos deixa mais prudentes e justos, atuando a justiça como a medicina da maldade”. Quem sabe não seja justo pagar por algo considerado injusto (aparentemente), uma forma de ampliar a nossa consciência e nos fazer evitar a repetição de tantos erros, levando-nos a tomar decisões mais justas com a devida responsabilidade de quem antevê (naturalmente) o que se sucederá no porvir?

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